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Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque 
Doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA). Professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas. Ex-Deputado Federal (1999-2003).

Artigo - Federal - 2005/1086

A Gritaria dos Argentinos
Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque*

Os conflitos comerciais entre Brasil e Argentina se acirraram nos últimos anos. A ofensiva dos empresários argentinos contra a entrada de produtos brasileiros naquele país ampliou-se no final do ano passado e desencadeou ações visando deter essa "invasão".

Em 2004 a disputa entre os dois países teve como principal motivação a expansão das vendas de eletrodomésticos produzidos no Brasil para o mercado argentino. As importações brasileiras chegaram a representar 62% do mercado de geladeiras e 51% do de máquinas de lavar roupa no consumo interno daquele país. Ameaças de adoção de medidas unilaterais pelos argentinos acabaram sendo substituídas por cotas de exportação.

A intensificação deste litígio tem sua origem na inversão do resultado comercial entre as duas economias. De 1995 a 2002, o saldo comercial foi sempre desfavorável à economia brasileira. Nosso déficit anual médio foi da ordem US$ 1 bilhão. Em 2003 o resultado passou a se inverter, chegando no ano passado a um superávit em favor do Brasil de cerca de US$ 2 bilhões, montante que pode chegar a US$ 3 bilhões em 2005.

A recuperação econômica registrada pela Argentina nos últimos anos pressionou o consumo interno e a indústria local não foi capaz de atender o crescimento da demanda. Em 2003 e 2004 o PIB argentino se expandiu em torno de 9% ao ano, recuperando parte da drástica queda de 22% entre 1998 e 2002. O crescimento da demanda interna argentina num mercado desprovido de barreiras alfandegárias permitiu à indústria brasileira direcionar seus produtos para aquele país.

Desde que o Mercosul foi anunciado, em 1991, a indústria argentina não foi capaz de se preparar para competir com o Brasil. Mesmo a forte desvalorização cambial de 2002 não foi suficiente para melhorar a competitividade da produção industrial argentina.

Quando se analisa o fluxo comercial por categoria de produto entre os dois países no período de 1996 a 2004 é possível observar que, enquanto os argentinos registraram superávit anual médio de US$ 2,4 bilhões em bens com menor valor agregado, a economia brasileira obteve saldos positivos médios na movimentação de manufaturas industriais, que contém maior valor adicionado, da ordem de US$ 1,9 bilhão ao ano. Os números servem para evidenciar que a nossa indústria é mais competitiva que a deles.

Há poucos dias o presidente argentino criticou fortemente os industriais brasileiros, acusando-os de "fortes, duros e impiedosos". Seu posicionamento mostra que o empresariado daquele país quer, mais uma vez, decidir no grito e com ameaças as disputas comerciais com o Brasil. Contudo eles deveriam reconhecer que não se adequaram à economia globalizada e hoje não conseguem competir com os brasileiros, mesmo com a grande vantagem obtida com a valorização recente do real.

A gritaria dos argentinos deriva de erros estratégicos cometidos por eles. Não adianta culpar o Brasil. A economia é movida pela lógica da eficiência.

 
Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque*

  Leia o curriculum do(a) autor(a): Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque.



- Publicado em 08/08/2005



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